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A Paralisia Cerebral (PC) é um grupo de desordem permanente do desenvolvimento da postura e movimento, causando limitação em atividades, que são atribuídas a um distúrbio não progressivo que ocorre no desenvolvimento encefálico fetal ou na infância. A desordem motora na Paralisia Cerebral é frequentemente acompanhada por distúrbios de sensação, percepção, cognição, comunicação e comportamental, por epilepsia e por problemas musculoesqueléticos secundários. Desta forma, a

possibilidade de inclusão social, juntamente com benefícios físicos e cognitivos para o indivíduo com PC, é a prática de atividades que possibilita a vivência de novas tarefas e sensações, além da melhora da qualidade de vida. Uma opção de atividade física atual e que utiliza os avanços tecnológicos são os consoles eletrônicos virtuais, utilizados como intervenção na recuperação e desenvolvimento em diversas populações com alterações sensoriais e motoras.

OBJETIVO: O objetivo deste estudo é verificar a ocorrência de aprendizagem motora em uma tarefa de jogo eletrônico em indivíduos com Paralisia Cerebral.

MÉTODO: Participaram da intervenção cinco crianças com diagnóstico médico de Paralisia Cerebral com idades entre oito e doze anos, sendo 2 do sexo feminino e 3 do masculino. Ambos os grupos com dificuldade leve relacionada ao tônus muscular, funções mentais de orientação, intelectuais e de atenção e com dificuldade

moderada no controle dos movimentos voluntários segundo a Classificação Internacional de Funcionalidade Incapacidade e Saúde.

A execução da tarefa consistiu em jogar boliche no console eletrônico Nintendo Wii. Para verificar a ocorrência de aprendizagem motora realizou-se 10 tentativas de jogar a bola de boliche em uma distância de 2 metros da televisão nas fases de aquisição; 5 tentativas na fase de retenção e 5 na fase de transferência imediata que foi realizada

a uma distância de 3 metros. Para organização dos resultados e comparação dos dados, optou-se por apresentar o valor das medias de pinos derrubados em cada fase da tarefa.

RESULTADOS: A seguir estão os dados das fases avaliadas por meio das médias da última tentativa de cada fase, Aquisição 1 (3,8); Aquisição 2 (5,3), Retenção (4,2) e transferência (4,2).

DISCUSSÃO: Ao analisar os resultados, em relação ao desempenho na fase de aquisição, pode-se deduzir a ocorrência de aprendizagem, pois os participantes obtiveram melhora de desempenho na direção de um ponto inicial a um ponto posterior no tempo (aquisição 1 em relação à aquisição 2). Além disso, as curvas

de desempenho apresentaram padrão exponencial negativamente acelerado, sendo possível identificar claramente, com o transcorrer do tempo, um platô de desempenho. Esse padrão reflete melhora substancial no início da prática e melhora tênue com o avanço das tentativas. Importante enfatizar a necessidade de outros estudos

com um número maior de participantes.

Texto completo: http://www.cedes.ufsc.br:8080/xmlui/bitstream/handle/123456789/338/Realidade%20Virtual%20na%20Paralisia%20Cerebral.pdf

 

Carlos Bandeira de Mello Monteiro

Lívia Simonetti Amorim

Mariana Moura

Jaqueline Freitas de Oliveira Neiva

Talita Dias da Silva

Fernanda Moreira Teles

Cassio de Miranda Meira Júnior

Apoio: Ministério do Esporte – Centro de Desenvolvimento do

Esporte Recreativo e do Lazer (REDE CEDES)

Não é sempre que se tem ocasião de deparar com uma contradição em termos tão claramente expressa. Em seu artigo "A dialética dos dois ódios", publicado no caderno "Mais! da Folha de São Paulo em 11/4/2004, Edgar Morin expõe da maneira  mais singela possível o partidarismo que contradiz sua pretensa imparcialidade em relação ao conflito do Oriente Médio. Além disso, embora o texto procure ater-se às relações entre palestinos e israelenses, a frase acima citada reconhece implicitamente a participação do Islam num confronto cuja história, anterior à própria guerra de 1948, já dura um século.

O texto do sociólogo francês inclui outra expressão chamativa. Referindo-se às chacinas praticadas pelos grupos terroristas, Morin descreve tais atos como "...uma afronta, uma ferida, um ultraje para toda a humanidade judaica". É difícil entender a razão pela qual o autor considerou necessário apor o adjetivo 'judaica' a um substantivo como 'humanidade'. A expressão não pode senão provocar estranheza, já que 'humanidade' refere uma totalidade cuja particularização mediante referência a determinada etnia é tão incoerente como a utilização do qualificativo 'eqüitativa' seguida do complemento 'em favor de...'

Tais incongruências, porém, traduzem fielmente o espírito do artigo. O esforço do autor em permanecer isento, intenção afirmada no próprio título, é constantemente desmentido pela argumentação. O texto de Morin tem como finalidade refutar as críticas dirigidas às posições defendidas pela maioria da população, dos governos e da intelectualidade européia com relação à política israelense face aos palestinos. A condenação às ações do estado judeu justifica-se plenamente, afirma Morin, tanto quanto a atribuição de motivações anti-semitas a esse posicionamento constitui um erro. A razão do equívoco deve-se à conversão dos judeus a uma ideologia nacionalista. Segundo Morin, a intelectualidade judaica, tradicionalmente caracterizada por um "...universalismo humanista, que contestava os particularismos nacionalistas e seus prolongamentos racistas...", desiludida com o ideal socialista, apegou-se a um "judeocentrismo" que "...se abstrai do conjunto da humanidade". (Seria então o etnocentrismo que separaria os judeus da humanidade "não judaica". Morin dirige aos judeus a mesma crítica feita por Lévi-Strauss às culturas que se pretendiam superiores, notadamente as que praticaram o colonialismo. Explica-se assim a curiosa  expressão 'humanidade judaica').

Conseqüentemente, as análises que expressam o ponto de vista sionista cometeriam o erro de interpretar como ressurgimento do velho anti-judaísmo europeu as manifestações contrárias ao estabelecimento de assentamentos e à atuação do exército israelense. "A dialética dos dois ódios" distingue as críticas ao estado judeu dos atos anti-semitas perpetrados na Europa. Morin entende que a presença israelense na margem ocidental do Jordão constitui um gesto colonialista, com todas as seqüelas que acompanham a dominação de um povo. A rejeição internacional e o ódio ao opressor tornam-se então inevitáveis. Essas atitudes, porém,  não deveriam ser confundidas.

O anti-judaísmo e o anti-semitismo europeus, segundo Morin, tem um peso insignificante na dessacralização de cemitérios e sinagogas, na agressão aos judeus nas ruas e nos atentados contra escolas judaicas que se tornaram comuns nos últimos anos. São os jovens muçulmanos que, indignados com a ocupação da Palestina e entendendo que os judeus defendem a estratégia israelense, dirigem sua ira contra aqueles que consideram representantes dos opressores de um povo árabe. Morin entende que se o anti-judaísmo muçulmano retoma os temas clássicos do ódio ao judeu é porque as injustiças cometidas por Israel contra os palestinos não podem senão despertar esse tipo de reação. "Não resta dúvida de que os palestinos são os humilhados e ofendidos de hoje, e nenhuma razão ideológica poderia nos desviar da compaixão por eles. Certamente é Israel que ofende e humilha". O anti-judaísmo europeu repousava numa alegação falsa— a atribuição de deicídio — mas o anti-judaísmo árabe encontra justificativa no colonialismo praticado por Israel. Em conseqüência, um futuro terrível aguarda não somente os israelenses mas todos os judeus, já que estes estão identificados com Israel. "O antijudaísmo em expansão prepara um novo infortúnio judeu. E por isso, de forma ainda infernal, os que humilham e ofendem são eles próprios ofendidos e voltarão a ser humilhados".

Morin não peca por sutileza nem dissimulação; o teor do argumento é evidente. Causado por Israel, o terrorismo palestino, por cruel que seja,  é uma reação compreensível que constitui o preâmbulo da hecatombe. Não há como deixar de ler na previsão "... voltarão a ser humilhados" e na interpolação "...de forma ainda infernal..." a evocação do holocausto. O vaticínio de Morin inclui uma atribuição de responsabilidade: os judeus colherão o que eles mesmos plantaram: "...muitos espíritos doravante judeocentrados são hoje incapazes de compreender a natural compaixão ante as desgraças dos palestinos". A "humanidade judaica" pode considerar ultrajantes a matança de civis israelenses e a caça aos portadores de kipás e estrelas de David, mas quem não se inclui nessa estranha categoria entende muito bem que se trata da aplicação pura e simples de um preceito elementar de justiça. Olho por olho, dente por dente ou quem com ferro fere com ferro será ferido.

Justamente quando o cristianismo está disposto a perdoar a crucificação de Cristo o incorrigível judeu comete o pecado capital do colonialismo que tomou o lugar do deicídio no código draconiano dos novos tempos humanistas. A substituição metafórica preconizada por Morin é a exata tradução, no dialeto intelectual, da clave com que Mel Gibson propõe a leitura do Evangelho. "...o seu sangue recairá sobre nossas cabeças e as de nossos descendentes" corresponde a "...os que humilham e ofendem são eles próprios ofendidos e voltarão a ser humilhados. Piedade e comiseração já estão submersos pelo ódio e a vingança". 

Expressões como "não resta dúvida" e "certamente" mostram que o sociólogo francês acredita piamente na versão do conflito construída sobre a idéia de que o ódio árabe contra os judeus foi gerado pelo que denomina "colonialismo israelense". O roubo de terras e a opressão da população palestina estão preparando uma nova catástrofe, tanto em Israel como na Diáspora. Se para Gibson e seus congêneres fundamentalistas a crucificação justifica uma punição que marca indelevelmente as sucessivas gerações dos descendentes de Abraão, o crime colonialista exigirá uma similar extensão do conceito de espaço. O respectivo castigo ultrapassará fronteiras e atingirá todos os judeus da diáspora, identificados com Israel.

A pergunta acerca das razões pelas quais os judeus não percebem que estão atraindo mais uma tragédia sobre suas cabeças é respondida de forma muito peculiar. "...se toda crítica a Israel é vista como anti-semita..." isso se deve a que os judeus "...se degradaram na imagem de si mesmos, assim como na imagem de Israel que incorporaram à sua identidade. Identificaram-se com uma imagem de perseguidos; o Shoah (Holocausto) é o termo que estabelece para sempre sua condição de vítimas...". O nazismo não se limitou a exterminar seis milhões de judeus mas em acréscimo cegou os sobreviventes. Tomando-se por mártires, elas rejeitam "...com indignação a imagem repressiva do Tsahal (exército israelense) mostrada na televisão". As evidências propagadas pela mídia são desconsideradas pelos novos colonialistas, que preferem centrar sua compreensão do conflito nos atos terroristas atribuídos ao povo palestino como um todo. Os opressores "...identificaram-se com prazer com a interpretação biblicamente idealizada de que Israel é um povo de sacerdotes". Em suma, os campos de concentração e as câmaras de gás deram origem a um nacionalismo estreito e xenófobo, cuja soberba será castigada com a repetição do morticínio.

A argumentação de Morin parte de um pressuposto cuja inquestionabilidade é julgada suficientemente demonstrada pela única menção factual do texto.  A política colonialista de Israel é atestada "...pelas resoluções da ONU que pedem o retorno de Israel às fronteiras de 1967". Segue-se a análise que atribui ao fator psicológico da identificação com a imagem do perseguido a razão pela qual os israelenses julgam legítimo apropriar-se de terras palestinas.

Haveria muito o que dizer acerca das descrições que compõem o arrazoado de "A dialética dos dois ódios". Do ponto de vista legal é preciso lembrar que a posição da ONU é diferente da descrita por Morin. A principal resolução menciona a retirada de territórios e não dos  territórios. Essa sutil diferença, sobre a qual muito se discutiu até chegar à redação final, significa que a ONU preconizava na ocasião uma solução negociada, obrigando os países árabes a aceitar a existência de Israel em troca da devolução de terras. A preposição de também indica que, visto a reiteração das agressões a Israel, será permitida eventualmente a anexação de zonas consideradas essenciais para a segurança do estado judeu. Até que ponto alguns, poucos, muitos ou todos os assentamentos construídos na margem ocidental se enquadram nessa definição permanece matéria de discussão, mas é evidente que uma paz verdadeira facilitaria enormemente o estabelecimento de um acordo. 

Cabe então perguntar pelas razões que impedem o fim da beligerância. O encaminhamento dessa questão exige o reconhecimento de uma obviedade, ou seja, que o estado de coisas criado pela guerra de 1967 se inscreve numa longa seqüência de confrontos cujo leit motiv é a não aceitação da existência de Israel por parte do mundo islâmico.

A leitura de "A dialética dos dois ódios" levaria um neófito a pensar que a presença israelense na margem ocidental decorre das mesmas razões que fizeram com que a Europa colonizasse a América, a África e a Ásia — ou seja, uma política expansionista que visava apoderar-se de matérias primas consideradas essenciais,  bem como garantir mercados, dominar rotas comerciais e criar zonas de influência. Estaria Morin projetando o passado colonialista do velho continente, particularmente o da França, em Israel? Talvez, mas as análises psicológicas são perigosas porque freqüentemente invocam motivações espúrias com a finalidade de desautorizar o interlocutor. Talvez esse procedimento seja digno de Morin,  mas está longe de constituir um modus operandi aceitável quando se trata de compreender situações complexas de política internacional, determinadas em grande medida por fatores sócio-econômicos e históricos.

Como o conflito árabe-israelense começou muito antes de 1967, não resta senão lembrar um conjunto de fatos e processos históricos totalmente omitidos em "A dialética dos dois ódios". É bem verdade que descrições do gênero não se prestam a imagens de televisão, vídeos ou fotos. Pior para os que acreditam que uma imagem vale por mil palavras.

Em aberta violação da resolução da ONU que criava dois estados, o judeu e o árabe, Israel foi invadido por cinco exércitos (Líbano, Arábia Saudita, Síria, Iraque e Transjordânia) no momento exato da proclamação da sua existência (maio de 1948). O confronto bélico terminou com a derrota dos invasores e o traçado de uma linha de armistício (1949). Repudiada até 1967 por todos os países árabes (mediante ameaças, boicote econômico, bloqueio de rotas internacionais, declarações de guerra e ações terroristas), é o retorno a essa mesma linha de armistício que se exige agora de Israel.

 A destruição do estado judeu tem sido há mais de meio século o objetivo prioritário da política exterior dos países árabe/muçulmanos. A guerra de 1967 se deveu ao fechamento do estreito de Tiran a navios destinados a Israel, o que privaria o país de petróleo. Israel combateu em três frentes, já que além de egípcios e sírios também os jordanianos, a quem se pedira neutralidade, atacaram o país. A derrota de egípcios e jordanianos fez com que Gaza e a margem ocidental do Jordão mudassem de mãos. Com relação ao Sinai, também perdido pelo Egito em 1967, sua devolução em 1982 torna muito difícil atribuir intenções colonialistas a Israel. A península do Sinai, aliás, é maior do que todo o Estado de Israel, além de rica em petróleo. Esse talvez tenha sido o único caso na história em que a nação vitoriosa numa guerra de defesa devolveu território tomado aos agressores em troca de um acordo de paz.

A situação legal dos territórios da margem ocidental do Jordão onde estão situadas as cidades palestinas e os assentamentos israelenses não foi objeto de qualquer deliberação por parte da ONU quando do armistício de 1949. Nessa ocasião o Egito se apossou da faixa de Gaza e a Jordânia da margem ocidental do Jordão, criando uma situação de facto sem legitimação internacional. A ocupação durou de 1949 a 1967, período em que jamais ocorreu qualquer reivindicação relativa à criação de um estado nacional palestino.

O terrorismo contra Israel, que Morin data de 1967, iniciou-se na década de 50 (imediatamente após o armistício de 1949) e continua até o presente, alternando períodos de calma e recrudescimento, mas sem interrupção. A atual campanha terrorista é comprovadamente financiada por ditaduras árabe/muçulmanas ricas em petróleo e conta com o apoio logístico da Síria. As milícias terroristas recebem pagamento proporcional às baixas israelenses causadas. Na medida em que é mais fácil matar civis, estes constituem o principal alvo da atividade terrorista e uma importante fonte de renda para as respectivas lideranças.

A Autoridade Palestina, entidade cuja instalação na margem ocidental (início da década de 90) deveu-se ao compromisso de renunciar à violência e estabelecer negociações de paz com o estado judeu, concede total liberdade de ação a milícias terroristas que negam o direito de Israel à existência. Hamas, Jihad Islâmica e as Frentes de Libertação Nacional (Popular e Democrática) pregam sem reservas a destruição de Israel e organizam sem restrições suas atividades bélicas no território governado pela Autoridade Palestina. Em flagrante violação das leis internacionais, os terroristas utilizam civis para proteger-se e enviam mulheres (às vezes simulando gravidez) e crianças para transportar bombas.

A penúria econômica do povo palestino teve início quando Arafat retornou da Tunísia. De 1967 até a criação da Autoridade Palestina a cooperação econômica entre Israel e os palestinos era considerável. Contrastando com o estado de coisas vigente sob a soberania egípcia e jordaniana, Israel construiu estradas e montou uma rede de eletricidade e água encanada que beneficiou mais de 90% da população local. A renda per capita dos palestinos, nesse período, superou a de egípcios e sírios.

Outro aspecto do texto de Morin refere-se a uma questão de cunho sociológico. Apesar da notória competência do autor nessa área, "A dialética dos dois ódios" oferece um retrato irreconhecível da sociedade israelense. A atribuição de uma atitude uniforme a israelenses e judeus, que Morin julga identificados "...com um povo de sacerdotes", contraria evidências amplamente conhecidas como a notável divisão do eleitorado israelense, que aliás jamais concedeu a liderança do país ao setor religioso. O  espectro político do estado judeu se caracteriza pela existência de uma miríade de agrupamentos políticos, incluindo partidos que representam a minoria árabe e uma esquerda tão pacifista que o repetido fracasso das tentativas de solucionar o conflito (Camp David, Taba, Oslo) reduziu drasticamente suas cadeiras no parlamento após a mais fragorosa derrota eleitoral testemunhada no país. Dessa notável pluralidade de posições políticas resulta que a atitude perante os palestinos, ao contrário do que afirma Morin, é bastante variada. Inversamente, a tendência à generalização abusiva pode ser encontrada nas afirmações do próprio sociólogo, que procura reduzir a complexa e por vezes caótica vida política israelense à uniformidade belicista.

Em 2000 e 2001 (Camp David e Taba),  Barak ofereceu a Arafat 97% da margem ocidental, compensação em território pelos 3% anexados por motivo de segurança e soberania compartilhada sobre Jerusalém. A oferta não foi julgada suficiente. Não há como deixar de concluir que Arafat não voltou da Tunísia para celebrar a paz, suposição que lhe valeu o prêmio Nobel. A sua função é precisamente impedi-la.

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"A dialética..." passa por alto aspectos importantes da política internacional que influenciaram e têm influenciado o conflito árabe-israelense, como a Guerra Fria e a atual relação conflitiva entre a União Européia e os Estados Unidos. O apoio europeu à Autoridade Palestina deve-se menos a preocupações éticas, como sugere o sociólogo, do que ao pragmatismo. Petróleo, petrodólares e mercados de exportação não são peças irrelevantes no tabuleiro político-econômico das relações internacionais contemporâneas. Tampouco são citados os numerosos conflitos associados ao fundamentalismo islâmico, da Cachemira às Filipinas, da Chechênia ao Sudão, do Paquistão à Argélia. Como se explicam omissões desse porte numa análise assinada por um sociólogo de tanto prestígio?

Mas é o desconhecimento da realidade política israelense, bem como a falta de qualquer menção à disparidade de atitude entre israelenses e a Autoridade Palestina nas negociações de paz e acima de tudo a total ausência de perspectiva histórica que conferem um aspecto caricatural à "...dialética dos dois ódios". Em decorrência, e apesar do estilo erudito, não há como distinguir o artigo de Morin de um panfleto.

Segue-se uma breve interpretação dos dados históricos, políticos e econômicos acima mencionados: 

A penúria da população palestina facilita sobremaneira o recrutamento de terroristas, na medida em que atuar nas milícias constitui um dos poucos meios de vida oferecidos aos desempregados. Como as verbas destinadas por europeus e americanos à AP superam quaisquer doações internacionais do gênero, a crise econômica que atinge os palestinos não resulta da falta de investimentos. A pauperização do povo palestino não é acidental nem inevitável mas serve a uma finalidade deliberada. Nesse sentido, trata-se de uma situação muito semelhante à que vigora nos países árabes, cujo orçamento é planejado de modo a evitar investimentos significativos no desenvolvimento econômico e na qualidade de vida da população. A paz e a decorrente cooperação econômica com Israel gerariam prosperidade e a médio prazo resultariam num processo de abertura política, algo que as ditaduras árabe-muçulmanas do Oriente Médio consideram ameaçador para sua estabilidade. Esse fator, que pode ser designado pela expressão "medo de contaminação", é detectável nas relações entre Estados Unidos e Cuba, China e Taiwan, e determinou a difícil coexistência entre União Soviética e Finlândia. Ele explica melhor do que as razões alegadas por Morin (imagem vitimizada dos judeus, colonialismo israelense) o conflito do Oriente Médio. O empenho dos regimes ditatoriais que governam o mundo árabe/muçulmano em isolar Israel é tão patente como o fato de que patrocinam o terrorismo.

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De acordo com um uso acadêmico já consagrado, "A dialética dos dois ódios" dedica-se inicialmente ao exercício conceitual,  no caso a sutil distinção entre anti-sionismo, anti-israelismo, anti-semitismo e anti-judaísmo. O restante do texto, à revelia de seu autor, apaga um esforço tão cuidadoso de elucidação, mostrando que é possível ostentar com desenvoltura todas essas posições.

Franklin Winston Goldgrub
Professor de Psicologia da PUC/SP, autor de A máquina do fantasma e O neurônio tagarela, entre outros livros.

“ A Psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor.”
Freud,  numa carta a Jung.

Qual o lugar do amor na Psicanálise? Esta é a pergunta que a psicanalista Olivia Bittencourt Valdivia faz em seu artigo: “ A Linguagem Interminável dos Amores”, e que tomamos como nossa. Como podemos diferenciar o amor transferencial do amor cotidiano? Existe um amor transferencial e um amor cotidiano distintamente? Será que o amor transferencial não nos dão pistas sobre o amor cotidiano ou ainda será que o amor cotidiano não nos dão pistas sobre o amor e ódio transferenciais?

“Freud humano e apaixonado nos deixa os mapas de sua exploração. Em seu percurso amoroso e sensual e autorizado pôr uma longa experiência clínica, há muito se interrogava sobre a vida amorosa dos homens. Em fins do século passado tentando entender a histérica percebeu que talvez ela quisesse dizer alguma coisa com o seu  corpo. Alguma coisa que não conseguia dizer com palavras. E a histérica falou do sexo, do amor, do ódio e da culpa. Freud sem querer, inaugurou o lugar da Psicanálise, que é na verdade o lugar de uma relação de amor. Nesta relação a libido refaz seus caminhos até a possibilidade de uma relação de amor com o analista, que abre esta possibilidade para a vida do analisando. Freud revolucionou a compreensão da noção de sexualidade colocando o sexual no registro do pulsional, estabelecendo a idéia de uma impossibilidade de satisfação, só encontrada  através da fantasia.”[1]

No rastro da sexualidade caminha o amor ou, como queiram, no rastro do amor caminha a sexualidade. Assim como a meta da pulsão é satisfazer-se a meta do amor é encontrar-se.

Aristófanes nos conta que nossa antiga natureza não era tal como a conhecemos hoje e sim diversa. Os seres humanos encontravam-se divididos em três gêneros e não apenas dois - macho e fêmea - como agora. Havia um terceiro gênero que possuía ambas características e que era dotado de uma terrível força e resistência e, além disso, de uma imensa ambição; tanto que começaram a conspirar contra os deuses. Zeus e as demais divindades viram-se então tendo que tomar providências para sanar tal insubordinação; tinham a alternativa de extinguir a espécie com um raio, como haviam feito com os gigantes, porém perderiam também as homenagens e os sacrifícios que lhes advinham dos humanos. Pôr um outro lado permitir tal insolência pôr mais tempo era impensável. Resolveu-se então parti-los ao meio, desse modo não  só se enfraqueceriam como também aumentariam de número. Assim foi que até hoje, divididos como estamos,  que cada um infatigavelmente procura a sua outra metade.

Essa busca incessante aparece no discurso de nossos analisandos das mais diversas  formas, todos desejam, em última instância ser amados. Todas as histórias narradas podem ser lidas  como histórias de amor. Numa composição binária: atividade e passividade, sadismo e masoquismo, paixão e recato, procura e espera, amar e ser amado, cada um à sua maneira e todos numa mesma composição, desenvolvem o drama de suas paixões num palco cercado pôr quatro paredes.

“A energia de Eros (libido), faz referência a tudo o que pode sintetizar-se como amor, incluindo : o amor a si mesmo, aos pais, aos filhos, à humanidade, ao saber e aos objetos abstratos. Nele convergem pulsões parciais de ternura, ciúme, inveja e desejos sexuais orientados para os mesmos objetos. O amor é , assim, apresentado como uma ampliação do conceito de sexualidade e ao mesmo tempo ancorado na inadequação radical dos objetos à satisfação sexual, vinculada a um fator de desprazer  inerente `a sexualidade humana.”[2]

Freud à partir dos três ensaios sobre a sexualidade, vai descrevendo o processo de sexuação/subjetivação humana, como uma tentativa de convergência das pulsões sexuais infantis (perverso polimorfo) à uma organização genital adulta, na qual estaria presente a possibilidade de reprodução. Na organização genital adulta, as pulsões se unificariam sobre o primado da genitalidade e reencontraria então a fixidez e a finalidade aparentes do instinto. Sabemos, entretanto, que este encontro/reencontro é da ordem do mítico. A pulsão nunca se satisfaz; não pela “inadequação radical dos objetos”, como coloca Olivia, mas pela inadequação da sua própria proposição - satisfazer-se.

A pulsão cega, muda e perdida, encontra seus olhos, sua boca e seu rumo no discurso amoroso. O discurso amoroso que, diga-se de passagem,  não recobre somente aquilo que entendemos como os belos gestos ou as belas palavras, mas também os mais odiosos gestos e as mais estúpidas palavras.

“O discurso amoroso (odioso) sufoca o outro, que não encontra lugar algum para a sua própria fala nesse dizer maciço. Não é que eu o impeça de falar, mas sei como fazer paradeslizar os pronomes : Eu falo e você me ouve, logo nós somos (Ponge). Às vezes, com terror, me conscientizo dessa inversão: eu que me acreditava puro sujeito  (sujeito submisso: frágil, delicado, miserável) , me  vejo transformado em coisa obtusa, que avança cegamente, que esmaga tudo sob seu discurso: eu que amo, sou coisa indesejável, faço parte do rol dos importunos: aqueles que pesam, atrapalham, abusam, complicam, pedem, intimidam (ou apenas simplesmente: aqueles que falam). Me enganei monumentalmente.

(O outro fica desfigurado pelo seu mutismo,  como nesses sonhos terríveis onde certa pessoa amada aparece com a parte inferior do rosto inteiramente apagada, sem boca; eu que falo , também fico desfigurado: o solilóquio faz de mim um monstro, uma língua enorme.)”[3]

Este amor revelado num dizer maciço assemelha-se ao dizer psicótico; parece-me que a condição do amor psicótico não leva em conta a distância dos corpos, esta distância que aprendemos a respeitar e que às vezes  nos parece insuportável: “A gente sabe guardar distância: à mesa, no trabalho, na rua, existe um espaço devido. Se me aproximo demais, coro, desculpo-me. Por que tal distância? Eu quero companhia e quero solidão, mas a distância convencional é menor que a pedida pelo desejo de estar comigo e muito maior que a proximidade consoladora dos amigos que faltam.”[4]

A loucura não seria mesmo essa anulação da distância que sabemos guardar uns dos outros? Não seria ela mesma um espécie  de verborragia que não levando em conta os espaços entres as palavras inaugura uma outra linguagem? Linguagem que se estrutura para além ou aquém dos sentidos  alcançados pelos eixos de referência usuais com os quais caminhamos? Caligaris dizia que se os neuróticos organizam-se segundo um mapa terrestre, os psicóticos se organizariam segundo um mapa estrelar!

Mas seria mesmo só da loucura todas estas atribuições? Me parece que o ser apaixonado também almeja algo parecido: fazer de dois - um.  O ser apaixonado elege o seu amado`a condição de único, onipresente em seus pensamentos e em seu corpo. Onipotente em suas capacidades. Me parece que o ser apaixonado alcança o impossível, e por ser o impossível, não perdura. O impossível é dar nome a algo inominável, é se apropriar de algo inapropriável.

“Por uma lógica singular, o sujeito apaixonado percebe o outro como um Tudo (a exemplo de Paris outonal), e , ao mesmo tempo, esse Tudo parece comportar um resto que não pode ser dito. E o outro tudo que produz nele uma visão estética: ele gaba a sua perfeição, se vangloria  de tê-lo escolhido perfeito; imagina que o outro quer ser amado como ele próprio gostaria de sê-lo, mas não por essa ou aquela de suas qualidades, mas por tudo, e essetudo lhe é atribuído sob a forma de uma palavra vazia, porque Tudo não poderia se inventariado sem ser diminuído:Adorável! não abriga nenhuma qualidade, a não ser o tudo do afeto. Entretanto, ao mesmo tempo que adorável diz tudo, diz também o que falta ao tudo;  quer designar esse lugar do outro onde meu desejo vem especialmente se fixar, mas esse lugar não é designável; nunca saberei nada; sobre ele minha linguagem vai sempre tatear e gaguejar para tentar dizê-lo, mas nunca poderá produzir nada além de uma palavra vazia, que é como o grau zero de todos os lugares onde se forma o desejo muito especial que tenho desse outro aí (e não de um outro).”[5]

Discutindo sobre o conceito de objeto (a), na teoria lacaniana, Nasio se pergunta: “Quem é o outro, meu parceiro, a pessoa amada? Quando Freud escreve que o sujeito faz o luto do objeto perdido, ele não diz ‘da pessoa amada e perdida’ e sim do ‘objeto perdido’. Por que? Quem era a pessoa amada que se perdeu? Que lugar ocupa para nós a ‘pessoa’ amada? Mas, será realmente uma pessoa?/  Coloquemo-nos no lugar do analisando, que deitado no divã, pergunta a si mesmo: ‘Quem é essa presença atrás de mim? É uma voz? Uma respiração? Um sonho? Um produto do pensamento? Quem é o outro?’ A psicanálise não responderá que o ‘outro é...’, mas se limitará a dizer: ‘ para responder a essa pergunta, construamos o objeto (a).’ A letra (a) é uma maneira de nomear a dificuldade; ela surge no lugar de uma não resposta”.[6]

De uma certa maneira poderíamos dizer que o apaixonado mimetiza a letra (a)  na pessoa amada. O ser amado passa a ser a causa animadora dos desejos do ser apaixonado. Na ilusão de um ser total, completo, no qual nada falta, que lhe pode dar tudo e negar nada. Numa perspectiva lacaniana, o ser amado concebido desta maneira estaria no registro do (A) , grande Outro não barrado. Podemos ver aqui, uma suposta causa de inúmeros sofrimentos de amor, onde o ser apaixonado tenta alcançar no outro algo impossível, um gozo impossível. O assassinato ‘por amor’ talvez reflita um anseio, uma tentativa desesperada, de atingir o outro em sua  imaginada, desejada ‘essência’.

A desejada captura da ‘essência do outro’ na verdade refere-se à uma  busca de nós mesmos; uma procura não apenas de uma suposta  unidade perdida, como também da força determinante, pulsional que nos atravessa e nos constitui. Nos constitui como seres estranhos a nós mesmos. Talvez o ser apaixonado reproduza inconscientemente a alienação primordial ao Outro, numa tentativa de metabolizar (ao estilo da repeticão traumática) esta experiência infantil alienante/constitutiva. Um mergulho na própria imagem especular.

Nossas associações nos levam a pensar nas indicações de Freud quanto aos tipos de escolhas objetais sob as quais uma pessoa pode amar; seriam elas do tipo narcísico e do tipo anaclítico. Nunca encontramos essas categorias em seu estado puro, mas sim mescladas , sobressaindo um pouco mais desta do que daquela. Na paixão o que talvez se destaque seja o amor narcisista, o qual corresponderia à :  a) o que ela própria é, b) o que ela própria foi,  c) o que ela própria gostaria de ser, d) alguém que foi uma vez parte dela mesma. Na atitude afetuosa dos pais para com os filhos, onde Freud reconhece uma revivência e reprodução do  próprio narcisismo infantil dos pais, estaria um   modelo de amor, entre um homem e uma mulher adultos, do qual falávamos.

Como Freud postula existiria ainda o modelo de relação por apoio ou anaclítico. A escolha objetal por apoio  se constrói à partir dos modelos das primeiras satisfações sexuais que se derivam da satisfação adquirida pelas pulsões do ego ou de auto-preservação. Entretanto, nos fica a pergunta, se não há ai também um  modelo predominantemente narcísico de ralação, pois como falávamos acima, os cuidados dos pais para com os filhos, se baseiam, desde a idade mais precoce, em princípios puramente narcísicos: “A criança terá mais divertimento que seus pais;  ela não ficará sujeita às necessidades que eles reconheceram como supremas na vida. A doença, a morte, a renúncia ao prazer, restrições à sua vontade própria não a atingirão;  as leis da natureza e da sociedade serão ab-rogadas em seu favor; ela será mais um vez realmente o centro e o âmago da criação - ‘Sua majestade o Bebê’, como outrora nós mesmos nos imaginávamos.”[7]

Será que estas categorias, anaclítica e narcísica, realmente fazem algum sentido para nós? 

Será que o amor não é sempre um amor narcísico? 

Cabe neste momento passarmos a fazer uma distinção entre o amor e a paixão, entre o que concebemos como amor no sentido mais “pleno” da palavra e o amor como sentimento fugaz,  esvanecente. 

Pudemos localizar apenas um aspecto do amor  quando  definíamos o ser amado no lugar do (A), grande Outro não barrado, ou seja  do outro que tem, que possui o que dá,  do outro supostamente completo. O amor propriamente dito, se situa diante do Outro destituído do que dá,  do grande Outro barrado, (A), em outras palavras do outro reconhecido em sua castração. Seria neste espaço que encontraríamos não mais a paixão, mas sim o amor.

Eu sei do meu desejo de capturar o outro e fazer dele a minha semelhança, eu sei que meu desejo me transborda e não reconhece diques, eu sei que por ‘amor’ sou capaz de matar  para me fazer existir.

No amor passa-se a saber não só sobre o próprio desejo, mas também sobre O desejo e que frente a ele não há um, e sim, dois. Quem disser que cabe só ao psicótico “esquecer” que existe um outro distinto, com uma lógica que lhe é peculiar , autônomo e independente em sua própria maneira de desejar e construir o mundo, com certeza nunca terá se apaixonado.

Sócrates no ‘Banquete’, leva seus ouvintes à conclusão  de que o amor não pode ser belo; pois ama-se sempre aquilo que lhe falta e o amor, que ao belo sempre ama, (quem ama o feio, bonito lhe parece) só pode então ser destituído de beleza. Neste sentido o amor mostra uma de suas facetas  mais narcísicas: a pessoa dirige seu amor ao que ‘ela própria gostaria de ser’, e porque não dizer como Sócrates : ‘ ao que ela própria gostaria de possuir.’

Entretanto Diotima fará Sócrates avançar em sua retórica sobre o amor...de uma maneira belíssima discorrerá por axiomas que irão chegar a um resultado mais belo ainda.  Não é por ser o amor destituído de beleza que ele seja necessariamente feio (narcísico?) dirá. O amor parece ser um intermediário entre os homens e os Deuses.

Equivalendo o amor ao bem, comenta algo assim: os homens desejam o bem, mas não desejam só o bem e sim possuir o bem - e possuir o bem seria antes possuir o bem para sempre. A fim de que desejariam possuir o bem para sempre?   “Em concreto, qual o efeito que eles (os amantes) visam (desejando possuir o bem para sempre), sabes dizer-me?”

Sócrates coloca : “Se o soubesse, não estaria aqui a admirar a tua ciência, Diotima, nem seguiria  as tuas lições para me instruir nessas matérias...”

Pois bem, Diotima diz : “o alvo do Amor não é de fato o Belo”, como supõe Sócrates, mas sim “Gerar e criar no Belo!”  E gerar concretamente, pois para o ser mortal esta é a única via de se perpetuar e imortalizar:[8] “o Amor  tem igualmente em vista a imortalidade[9]

Gostaria de acentuar com esta passagem que Diotima aponta para uma possibilidade de amar que ultrapassa a esfera pessoal e culmina com a criação, a qual se contrapõe à repetição.

O amor em Freud nos leva a pensar o amor como repetição, estamos inseridos numa cadeia de imagos, marcados pelas impressões infantis, das quais não podemos nos furtar. “Quando amamos não fazemos mais que repetir; encontrar o objeto é sempre reencontrá-lo e todo o objeto de amor é substitutivo de algum objeto fundamental prévio à barreira do incesto.”[10]

Em seu artigo, Olivia coloca que, em contraposição à Freud, a boa  nova de Lacan foi mostrar que “há possibilidade de novos amores possíveis”, “Lacan define o amor como aquilo que vem em suplência da relação sexual. Na impossibilidade da relação sexual ligada ao Real, há uma reversão simbólica permitindo ao sujeito a ilusão de que a relação sexual é possível. Na medida em que é momentânea, não consegue manter a certeza e se dá outra reversão imaginária que se revela como amor ”[11]

Penso que Diotima nos mostra   como o amor transcende o amor imaginário, através do ‘gerar no Belo’ e amplia assim as possibilidades de suplência da ‘relação sexual’.

Poderíamos ainda seguir discutindo sobre város temas que se abrem quando falamos do amor, por exemplo quanto a especificidade do amor do homem e do amor da mulher, que penso terem qualidades (e defeitos!) próprios, mas temos que nos reconhecer castrados também em relação à nossa criação.

Quanto a disposição inicial   em discutir  as singularidades do amor de transferência do amor cotidiano não creio  que tenhamos feito muitos avanços. Miller discutindo sobre o amor de transferência, numa das conferências de Caraquenhas, nos mostra como esta distinção parece um tanto quanto arbitrária quando olhada com mais cuidado, pois se reconhecermos o amor de transferência como “uma repetição estereotipada das condutas inscritas no sujeito, dispostas a ressurgir quando se lhes dá ocasião” , isto, como diz Miller “é certo para todo amor”.[12]

Assim como o amor não é algo do dia a dia, a entrada em análise também não. Porém quando esta acontece é indicação que aquela já se tornou possível, ou será ao contrário? A associação livre tem algo de uma postura alienada em relação ao outro ao qual se dirige a fala. Um pouco como a fala do apaixonado que com o seu discurso busca um sentido e um continente para sua emoção. O analista como suporte e condicionador da fala do seu analisando, aposta no inconsciente, transmitindo a idéia e a comprovação impírica, de que no limite da fala , da palavra, pode ser encontrada a verdade sobre o Outro que representa a si mesmo. Diríamos que o analista tem a função de balizador do gozo[13] do Outro, isto quer dizer que não só serviríamos como testemunhas da castração como também seríamos um eixo de referência às modalidades do sujeito gozar.

Deixamos de lado, influenciados pela tortuosidade e dispersividade que o próprio  tema provoca, talvez uma das discussões principais deste trabalho, a saber: De que amor se trata , quando Freud , afirma que ‘a psicanálise é em essência uma cura pelo amor’! Freud cientista, Freud céptico quanto à própria natureza do homem[14], nos deixa um pouco embaraçados com uma afirmação como esta. Talvez tenhamos que dar atenção ao interlocutor a quem se dirige a frase com o fim de justificá-lo (desculpá-lo)? Mesmo assim, de que maneira?

Todavia temos ainda a possibilidade de acreditar que o amor a que se refere Freud não é o amor judaico-cristão do qual descendemos, mas sim uma outra espécie de amor. Uma outra espécie de ‘aproach’.

Mas, que espécie de amor/aproximação é esta?

Diríamos que  a isto  que Freud dá o nome de amor  poderia  ser pensado como todas as nossas condutas que, conscientemente ou não, sintetizam a nossa ética, que num resumo um tanto grosseiro, significam:  saber que o sofrimento é algo inerente à condição humana, que não podemos viver no lugar do outro algo que lhe é próprio, que não podemos apartar o sofrimento de quem quer que seja, no máximo, acompanhá-lo.

Iso Alberto Ghertman

Psicólogo/Psicanalista - Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae - Mestre pelo IPUSP

BIBLIOGRAFIA

  • Valdivia, Olivia Bittencourt;  “A Linguagem Interminável dos Amores”;  Jornal do Federal  Nº34; 1993.
  • Freud, Sigmund;  “Obras Completas”;  Ed. Imago; 1969.
  • Platão;  “O Banquete”;  Edições 70;  1991.
  • Alain Miller, Jacques;  “ Percurso de Lacan - Uma Introdução”;  Ed. Zahar;  1994.
  • Barthes, Roland;  “Fragmentos de Um Discurso Amoroso”;  Ed. Franciso Alves;  1995.
  • Herrmman, Fabio;  “Andaimes do Real - Livro I”;  Ed. Brasiliense;  1991.
  • Nasio, J.-D.;  “Cinco Lições Sobre a Teoria de Jacques  Lacan”;  Ed. Zahar;  1993.
  • Souza, Paulo Cézar (organizador);  “Freud & O Gabinete do Dr. Lacan”;  Ed. Bras.;  1990.
  • Milan, Betty;  “O que é Amor”;  Ed. Brasiliense;  1991  

[1] Valdivia, “ A Linguagem Interminável dos amores”.

[2] Idem nota (1)

[3] Barthes, “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, pag.148

[4] Herrmann,  “Andaimes do Real”, pag.103.

[5] Barthes, “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, pag.14

[6] Nasio, “Cinco Lições sobre a Teoria de Jaqques Lacan”, pag.93/92.

[7] Freud, “Sobre o Narcisísmo: Uma Introdução”, pag.108.

[8] O desejo da imortalidade (supondo universal) também deveria ser objeto de investigação! Porque desejamos a imortalidade? Porque não podemos simplesmente morrer? Desejamos a imortalidade pelo medo da morte ou por amor à vida? E o que há na vida que causa tanto amor a ela?

[9] Platão, “O Banquete”, pag.76/77

[10] Bittencourt, idem nota (1)

[11] Bittencourt, idem nota (1)

[12] Miller, “Percurso de Lacan - Uma Introdução”, pag.66

[13] Sabemos da complexidade do conceito, porém para este trabalho não foi possível desenvolvê-lo. Para aqueles interessados no tema recomendo o livro do Nasio, citado aqui.

[14] Numa entrevista belíssima,  perto do final de sua vida, Freud comenta, ao passear pelo jardim de sua casa em Londres, que preferia “a companha dos animais à companhia dos humanos” ,  e referindo-se ao desejo de imortalidade diz não tê-lo: “Se reconhecemos os desejos egoístas por trás de toda conduta humana, não temos o mínimo desejo de voltar...para que serviria isso ,sem memória”. “Não me faça parecer um pessimista - disse ele após o aperto de mão . - Eu não tenho desprezo pelo mundo. Expressar desdém pelo mundo é apenas outra forma de cortejá-lo, de ganhar audiência e aplauso. Não, eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz - ao menos não mais infeliz que os outros.”  -  Paulo Cézar Souza, ‘Freud e o Gabinete do Dr. Lacan’.