Antes de tecer qualquer consideração a respeito da definição de musicoterapia e das suas indicações, talvez seja importante situar esta especificidade clínica no campo das terapias. Se compreendermos a música como uma forma específica de manifestação artística, é no terreno das arte-terapias que a musicoterapia está inserida.
A música, enquanto arte, é uma forma simbólica do artista colocar-se no mundo; por meio da sua obra musical, o artista encontra uma forma de expressar e compartilhar seus processos internos. No entanto, a utilização da música com finalidade terapêutica implica a figura de um terapeuta que traga consigo uma formação específica em seu campo de atuação, que engloba a música e as teorias e técnicas psicoterapêuticas.

Portanto, a singularidade da musicoterapia está na construção de um processo terapêutico – que envolve entrevistas iniciais, intervenção e avaliação – assentado na presença do terapeuta e na utilização da música e dos sons como uma possibilidade de acesso à realidade psíquica do paciente, com o objetivo de alcançar fins terapêuticos.

Segundo a French Association for Music Therapy, a musicoterapia é “a utilização de sons e da música em uma relação psicoterapêutica” (Bruscia, 1998, p. 298). A partir desta definição temos dois termos: sons/música e relação psicoterapêutica. Na musicoterapia, apesar da utilização da música e dos sons estar relacionada a uma finalidade terapêutica, diferenças filosóficas determinam o lugar ocupado pela música e a função por ela desempenhada no processo terapêutico.

Uma diferença fundamental consiste em estabelecer se, no processo terapêutico, a música está sendo utilizada como terapia ou em terapia. Quando se usa a música como terapia, a música ocupa o lugar central no processo terapêutico e tem como função afetar diretamente o paciente. A ênfase está na relação do paciente com a música, sendo que o terapeuta ocupa o lugar de um facilitador que acompanha o paciente em seu contato terapêutico com a música.

Uma outra situação configura-se quando a música é utilizada em terapia. Nesta situação, o lugar ocupado pela música no processo terapêutico é secundário e a ênfase está na relação entre o paciente e o terapeuta, compreendida como o motor para uma mudança terapêutica. Nestas circunstâncias, a música tem a função de facilitar a expressão e formalização de conteúdos que o paciente não está conseguindo expressar por meio da palavra.

Logo, os recursos sonoros e musicais inseridos em um processo terapêutico podem vir a ser uma via expressiva que se presta a auxiliar o paciente a manifestar seus afetos de uma forma simbólica, por meio da qual o paciente pode descobrir aspectos seus que antes estavam obscuros e se reconhecer no produto sonoro e musical, resultado do processo de criação.

Contudo, neste percurso criativo o produto final, ou seja, aquilo que o paciente venha a construir sonora e musicalmente, não é importante e não passa por um julgamento estético. Toda a importância está deslocada para o paciente enquanto sujeito inserido em um processo de criação que é permeado por imagens sonoras e significações. O que importa é o movimento do sujeito buscando nuances nas formas, nos sons, nas cores, para expressar seu sofrimento.

Em relação às indicações clínicas, é preciso considerar que a musicoterapia “é uma forma de tratamento como qualquer outro que possui seus próprios limites e contra-indicações.” (Priestley, 1980, p. 6-7). No que diz respeito aos limites da musicoterapia, é fundamental desconstruir a ilusão, um tanto freqüente, de que a arte ou a música em um contexto terapêutico possam levar o indivíduo que sofre a transcender todos os seus problemas.

As indicações ao processo musicoterapêutico dirigem-se, sobretudo, à indivíduos que apresentam variados graus de dificuldade ou impossibilidade de expressão pela via da palavra falada, seja por lesões ou deficiências orgânicas ou por problemas de ordem psíquica. No entanto, as indicações demandam um cuidado específico e acompanhamento neurológico no caso de pacientes que apresentem histórico de crises convulsivas. Em relação à idade do paciente, a musicoterapia é indicada para indivíduos de qualquer idade (bebês, crianças, adolescentes, adultos, idosos) considerando-se, em todos os casos, a especialidade clínica e a área de atuação do terapêuta.

Cláudia Andréa Gori.

Bibliografia consultada:

Bruscia, Kenneth E., “Metodi di Improvvisazione in Musicoterapia”. Itália, Editora Ismez, 1999.

“Definindo Musicoterapia”. Rio de Janeiro, Enelivros, 1998.

Carvalho, Maria Margarida M.J. de (coord.)., “A Arte Cura? Recursos artísticos em psicoterapia.” Campinas, Editorial Psy II, 1995.

Païn, S., Jarreau, G., “Teoria e Técnica da Arte-terapia. A compreensão do sujeito.” Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.

Priestley, M. “The Herdecke Analytical Music Therapy Lectures”. Stuttgart, West Germany, 1980.